Morre aos 95 anos a pioneira Antonia Moreno Doce, uma das primeiras moradoras de Maringá

Morre Antonia Moreno Doce, a mais antiga moradora de Maringá

A pioneira Antonia Moreno Doce, de 95 anos, que chegou em 1943, quando Maringá ainda não existia, e em 82 anos viu a mata dar lugar a uma das principais cidades do Paraná e uma das melhores do Brasil, morreu nesta quarta-feira, 12, de problemas decorrentes da idade. Ela era a pessoa que morava em Maringá há mais tempo.

 

O corpo está sendo velado na Capela Prever da Zona 2 e será sepultado às 13h30 no Cemitério Municipal.

 

Com o marido, Antonio Doce, falecido em 2022, dona Antonia morou 70 anos no Jardim Aeroporto, onde criou seus oito filhos. Ela deixa também muitos netos, bisnetos e tataranetos.

 


Os Antonios e o Santo Antonio

Na casa de madeira em que moraram 70 anos, Antonia e o marido Antonio faziam festa todos os anos no dia 13 de junho, o Dia de Santo Antonio. É que a vida dessa mulher foi marcada pelo nome do santo.

 

Ela era Antonia, casa com Antônio Doce, filha de Antonio Moreno Dias, irmã de outro Antonio, mãe de outro Antonio. A avó dela também era Antonia.

 

Um dos prazeres de Antonia Moreno Doce era receber os descendentes e amigos para contar como era o lugar em que ela, os pais e os irmãos chegaram em 1943, antes da existência do povoado de onde hoje é chamado de Maringá Velho.

 

Primeiro falava de como foi difícil chegar. Ela, a mãe e os irmãos menores ficaram em uma casa alugada em Mandaguari enquanto o pai, Antonio Moreno Dias, e dois irmãos maiores se aventuraram na mata densa, abrindo caminho a facão e enfrentando os perigos da floresta virgem, para chegar até o lote que tinham comprado.

 

 

“Meu irmão ficava com um trabuco na mão para afastar as onças”

Onde hoje é a Estrada Colombo, que liga o hoje distrito Iguatemi e Paiçandu, os Moreno abriram uma clareira e trouxeram a família que estava em Mandaguari. “Viemos em um carroção e quando chegamos ficamos morando debaixo de um encerado”, lembra a pioneira, que na época tinha 13 anos.

 

“Não morava ninguém por perto e durante a noite as onças ficavam rondando nossa morada, durante o dia víamos vários tipos de bichos, principalmente cobras”, diz Antonia, que é um dos poucos maringaenses que conheceu pessoalmente os sutis, povo que vivia em comunidades espalhadas pelas matas do noroeste do Paraná desde o século anterior e desapareceram com a colonização da região. Os sutis, geralmente muçulmanos, eram descendentes de escravos revoltosos e índios. Eram os caboclos, segundo ela, gente do mato, mas muito bons, pessoas fáceis de fazer amizade.

 

“Era tudo muito difícil. Se alguém ficasse doente ou fosse picado por uma cobra, podia até morrer, porque o socorro mais próximo era em Mandaguari e era muito difícil viajar até lá”, conta a pioneira. Água para beber, higiene pessoal e lavar roupas tinha que se buscada a 500 metros, em um riozinho. “As mulheres não iam sozinhas por causa dos perigos da mata. Enquanto pegávamos a água, meu irmão ficava vigiando com um trabuco na mão”.

 

 

Pioneiros que se vão

Dona Antonia Moreno Doce é mais uma pioneira que Maringá perde nos últimos dias. Outros pioneiros que morreram recentemente foram o advogado Jorge Haddad, que chegou em 1946, Juraci de Souza Natali, de 99 anos, Ana da Silva Correa, também de 99, e a professora Ignez Dorothea Baccarin, a Doris Baccarin, esposa do ex-diretor do Colégio Gastão Vidigal Basílio Baccarin, um dos fundadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

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