Pioneiro da cafeicultura em Mandaguaçu, Antonio Carraro agora investe em nelore P.O.

Do café ao Nelore P.O., Carraro é marca de pioneirismo e sucesso

O menino que engraxava sapatos e vendia garrafas quando Mandaguaçu nascia foi um dos maiores exportadores de café da região e aos 80 anos descobre a paixão pela criação de gado de elite

 

LUIZ DE CARVALHO

 

Quando Antonio Carraro chegou a Mandaguaçu, o mundo estava em guerra e as matas do norte do Paraná iam aos poucos dando lugar a extensos cafezais. Mandaguaçu, na realidade, nem existia. Era apenas um lugarejo com duas ou três casas de madeira na beira de uma estrada poeirenta, que, para um lado ia para Maringá, para outro chegava a Paranavaí, cidadezinhas que estavam nascendo, mas já tinham vendas, lojas que vendiam panos, enxadas, querosene, a escola, o médico, a farmácia, o cartório e a sede da Companhia Melhoramentos.

 

Na época, aquele lugarejo, que fazia parte do município de Mandaguari, chamava Cruzeirópolis, depois virou Vila Guaíra, mas os moradores nem sabiam disso, só conheciam o lugar como Cala-Boca.

 

O menino viu famílias e mais famílias chegando e seguindo em direção às fazendas, surgiram mais casas, mais ruas, as vendas que lotavam nos sábados e domingos quando as famílias vinham das fazendas para ir à missa, comprar pano para roupas, facão, enxada, querosene, remédios para vermes, pote de barro, panela.

 

Esses dias eram os que Toninho mais gostava, pois levantava uma boa grana engraxando sapatos. E seu pai, Zé Carraro, via seu bar lotado e ainda ganhava dinheiro levando as famílias e suas compras na charrete que ficava na frente do bar.

 

O menino viu também chegar as primeiras cargas de café produzido na região, gostou daquela movimentação de caminhões e mal sabia que em breve seria o maior comprador e vendedor de café da região e um dos maiores exportadores do grão, na época conhecido como ouro verde.

 

 

Ouro verde muda o cenário da região

‘Seo’ José e dona Tereza eram pessoas jovens e perceberam que, com a riqueza do café na região, havia muitas oportunidades. José vendeu o bar e montou uma pequena máquina de beneficiamento de café, a primeira de Mandaguaçu. Pouco depois, largou o beneficiamento e se associou a um escritório que comprava café dos produtores locais e vendia nas máquinas e armazéns em Maringá.

 

O café do Paraná era levado para o Porto de Paranaguá ou o Porto de Santos, de onde seguia para todos os continentes. Saía café, voltava ien, libra esterlina, franco francês, lira italiana, peseta, escudo e dólar.

 

Trabalhar em sociedade não era tão fácil para quem sempre cuidou sozinho de suas coisas e logo José Carraro se desentendeu com os sócios e a sociedade acabou, mas ele comprou as partes de outros e levou os irmãos e os filhos para ajudar a tocar.

 

Quando se fala ‘levou os filhos’, na verdade levou Toninho, que era o único que já tinha idade e conhecimento para o trabalho necessário na empresa.

 

 

Mercaex faz história

Foi dessas mudanças que nasceu a Mercaex – Mercantil Carraro Exportadora de Café. Zé Carraro ganhou muito dinheiro, passou a participar ativamente da vida da cidade que nascia, até doou uma área de terra para a construção de uma das primeiras escolas públicas do lugar, hoje o Colégio Santo Carraro.

 

Antonio tinha por volta de 16 anos quando teve que assumir a direção da empresa. Apesar da pouca idade, ele já tinha facilidade para os números, graças ao trabalho que teve no escritório de Bruno Guide, um dos primeiros contadores da região. Trabalhou também com João Roberto Barato.

 

Os seis filhos de “seo” José e dona Tereza, Antonio, Augusto, Benedito, João, Geni e Pedro, se envolveram no trabalho, mas coube a Antonio, o mais velho, a parte da negociação e era o que ele sabia fazer de melhor.

 

Para quem engraxou sapatos e vendeu garrafas desde a infância, trabalhar não era novidade.

 

Por necessidade, o adolescente aprendeu na marra a fazer negócios, a procurar as melhores oportunidades de venda em Maringá e ainda era quase um menino quando já fazia negócios com os grandes exportadores de café, em Santos, no Estado de São Paulo.

 

Fazer a melhor venda, para ele, exigia tanta habilidade quanto tintar, engraxar e lustrar um par de sapatos pretos sem sujar a meia branca e a barra da calça do freguês.

Pioneiro da exportação de café, Antonio Carraro, da Mercaex de Mandaguaçu, agora investe em gado de elite

Foto meramente ilustrativa de Mandaguaçu na década de 1950 Foto: Arquivo José Wille

 

Com o armazém do IBC (Instituto Brasileiro do Café) sempre lotado, o café da Mercaex passou a ser negociado diretamente com os grandes exportadores, no Porto de Santos, onde termina (ou começa) a linha férrea que passa pelo norte/noroeste do Paraná.

 


Eis que surge a artista da família

Foi nesta época Antonio que conheceu uma menina que morava do outro lado da rua, não resistiu ao azul daqueles olhos típicos dos povos vindos das regiões bálticas, se apaixonou e casou com Tânia Maria, a filha do dentista da cidade, o Dr. Leonardo Zvinokievicz, que acabara de se mudar de Curitiba.

 

Tânia tirou aquele sobrenome que a toda hora alguém pergunta “como é que escreve?” e virou senhora Carraro.

 

Antonio da Mercaex e Tânia iniciam uma família que marcou na sociedade de Mandaguaçu. Logo vieram os filhos e a senhora Carraro foi aos poucos transmitindo a eles a importância e a beleza da arte, sendo ela própria adepta das artes plásticas, do artesanato e da decoração.

 

Ela teve também a Carraro Artes e a Carraro Bodados, com dezenas de bordadeiras e encomendas de todo quanto é lugar.

 

Entendida de moda e beleza feminina, Tânia foi o braço paranaense de uma importante empresa internacional que promovia concursos de misses, precisou viajar várias vezes por ano aos Estados Unidos e numa dessas realizou uma exposição com seus trabalhos em solo americano.

 

Uma geada muda a economia do Paraná

Na década de 1970 o café era o principal produto de exportação do Brasil e era identificado em qualquer lugar do mundo como uma das marcas do Brasil, como Pelé, bossa-nova e samba.

 

Mas, bastou uma noite de inverno e o dia seguinte para mudar a história, a economia do Paraná e a agricultura. A geada negra de 1975 mudou o ouro verde para horror negro, decretou o fim da cafeicultura no Paraná, as terras se desvalorizaram e milhões de famílias que viviam na zona rural passaram a compor os bolsões de pobreza nas cidades. Municípios que viviam do café murcharam. Populações de 15 mil, 20 mil pessoas caíam de uma hora para outra para 2 mil, 3 mil. E não foi diferente com Mandaguaçu.

 

Mas, o azar de alguns pode ser sorte para outros. Os Carraro estavam com uma grande quantidade de café armazenado e puderam negociar no momento em que acharam apropriado e ainda estabelecendo os valores.


Nova geração, novas ideias, novos ramos

Nos anos seguintes, consciente de que o café jamais voltaria aos patamares de antes da geada de 1975, Antonio Carraro e alguns dos irmãos passaram a investir em outras áreas. A primeira opção foi a compra de uma pequena fazenda na estrada para Pulinópolis, a Aparecidinha, depois veio outra propriedade de 40 alqueires no município de Atalaia, mais uma na região de Querência do Norte, Monte Castelo e aí foi Mato Grosso e Mato Grosso do Sul a dentro. Antonio Carraro chegou a ter 18 fazendas.

 

Hoje, a família Carraro está em frentes diversificadas, isto graças à visão das novas gerações da família, a começar pelos filhos Carlos Alberto Carraro, Beto, o primogênito, e Fábio Roberto Carraro, o Bio, zootecnista que já morou no Canadá, estudou transferência de embriões em gado de corte, trouxe para o Brasil a tecnologia do gesso acartonado, o drywall, em parceria com Luiz Mori Neto, arquiteto que é referência em Curitiba. Atualmente, Bio abriu o leque de investimentos, comprando.

 

Antonio e Tania Carraro têm ainda as filhas Fabiana Kristina Carraro Buosi, que é gêmea do Bio, e Patrícia Renata Carraro Neves, que mora atualmente em Curitiba.

 

Os negócios dos Carraro vão de loja de confecções a loteamentos, mas a paixão de Antonio Carraro agora é gado, gado de elite, puro de origem. Café, só na lembrança e na xícara.

 

 

ACAR Nelore P.O. nos 80 anos do patriarca

Foi no dia em que completou 80 anos que Antonio Carraro se apaixonou de vez por gado de elite. Ele, com irmãos e filhos, ja era criador de Nelore há muitos anos, mas achava que esse negócio de genética era coisa complicada demais para quem já trabalhou tanto na vida e agora quer sossego. Ele pensava assim até o dia em que completou 80 anos.

Antonio Carraro, um dos maiores exportadores de café da região, agora investe em gado de elite

Antonio Carraro com Tania Maria e os filhos Beto, Bio, Fabiana Kristina e Patrícia Renata Foto: Arquivo da família

 

 

A família estava reunida e patriarca curtia o aniversário na sua poltrona favorita, assistindo um programa rural com leilões de gado P.O. (Puro de Origem), ao vivo, e comentava com a família que “é bonito, todo mundo quer, mas é caro demais”. De repente, o apresentador do programa, com aquela voz de narrador de rodeio, virou-se de frente para a câmera, olhou nos olhos do aniversariante e sapecou: “Compraaadooo por Antonio Carraro de Mandaguaçuuuu!” “Seu Antoooonio Carraro de Mandaguaçuuuu , que está fazendo oitenta anos hoje, leva a matriz Nelore P.O.”

 

Antonio não entendeu nada, olhou assustado para a cara da mulher, dos filhos, netos. “Ué, o cara que arrematou tem nome igual ao meu… também faz aniversário hoje… de oitenta anos… e é de Mandaguaçu também. Terá dois Antonio Carraro em Mandaguaçu e eu não conheci o outro?”.

 

Só depois de muita confusão, indagação e espanto é que o filho Beto sacou o celular e mostrou que ele é que tinha feito a compra para o pai. Era o presente de aniversário, aquilo que é bonito, todo mundo quer, mas é caro demais.A partir daquele instante, nascia a ACAR Nelore P.O., o plantel de gado de elite da família Carraro, com Antonio provando que nunca é tarde para iniciar um novo negócio.

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