Conceição Evaristo recebe título de doutor honoris causa pela UFRJ

Conceição Evaristo recebe título de doutora honoris causa pela UFRJ

Marcada por comoção e celebração da ancestralidade negra, a cerimônia de entrega do título de doutora honoris causa à escritora, poeta e linguista Maria da Conceição Evaristo de Brito oficializou o reconhecimento máximo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a uma de suas mais ilustres ex-alunas, cuja obra transformou o pensamento e a literatura brasileira contemporânea a partir do conceito de escrevivência.

 

A concessão da honraria partiu de proposta da Faculdade de Letras, unidade onde a escritora se graduou e foi aprovada por aclamação na reunião ordinária do Conselho Universitário (Consuni), realizada na quinta-feira, 5, em sessão solene do Conselho Universitário (Consuni) no Salão Dourado do Palácio Universitário, no campus da Praia Vermelha.

 

Durante a solenidade, o reitor da UFRJ, Roberto Medronho, destacou o impacto das políticas de ações afirmativas na democratização das salas de aula e celebrou o legado de resistência de Conceição Evaristo. Medronho ressaltou a honra de a instituição acolher de volta sua diplomada no mais alto patamar de distinção.

Escritora Conceição Evaristo recebe título de doutor honoris causa pela UFRJ

Reitor Roberto Medronho presidiu a cerimônia | Foto: Fábio Caffé (SGCOM/UFRJ)



 

“Sua trajetória demonstra algo em que acredito profundamente: a educação transforma a vida das pessoas, que, por sua vez, transformam o mundo. Essa homenagem não representa apenas o reconhecimento da UFRJ à sua trajetória, é também a UFRJ que se sente muito honrada por tê-la entre suas ex-alunas e agora como doutora dessa instituição. Hoje, ao concedermos o título de doutora honoris causa a Conceição, celebramos não apenas sua obra, mas também o Brasil que queremos construir, mais fraterno, mais igualitário, mais democrático e mais humano”, disse o reitor.

 

Memória, docência e escrita

Ao proferir a saudação oficial, a professora Vanessa Ribeiro Teixeira reconstituiu os primeiros passos da homenageada, recordando seu nascimento em Belo Horizonte, em 29 de novembro de 1946, e sua infância na favela Pendura Saia ao lado da mãe, dona Joana Josefina. A oradora rememorou o doloroso apartheid escolar enfrentado por Conceição no curso primário, quando crianças pobres e negras ficavam segregadas nas salas do porão da escola, até a escritora ascender ao pavimento superior por seu desempenho escolar e vencer, em 1958, seu primeiro concurso de redação com o tema “Por que me orgulho de ser brasileiro”.

 

Ressaltou ainda que a paixão pelas narrativas brotou em uma casa materialmente desprovida, porém repleta de histórias orais de tios e vizinhos, antes de Conceição atuar como trabalhadora doméstica e professora da rede básica no Rio de Janeiro.

Escritora Conceição Evaristo recebe título de doutor honoris causa pela UFJR

Conceição Evaristo durante a solenidade de outorga do título de doutora honoris causa Foto: SGCOM/UFRJ

 

A trajetória acadêmica e a projeção literária de Evaristo também foram destacadas. A nova doutora honoris causa mudou-se para a capital fluminense em 1973, onde foi aprovada em concurso público e atuou como professora das redes públicas municipais do Rio de Janeiro e de Niterói.

 

Em 1987, ingressou no curso de Letras da UFRJ, graduando-se em 1990. Em 1992, iniciou o   mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Defendeu, em 1996, a dissertação “Literatura negra: uma poética da nossa afrobrasilidade”, trabalho que, décadas mais tarde, viria a ser publicado em livro.

 

Em 2011, concluiu o doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF), desenvolvendo pesquisas que relacionaram a obra de autores afro-brasileiros e africanos como Nei Lopes, Edimilson de Almeida Pereira e Agostinho Neto. Evaristo atuou como professora e pesquisadora convidada em diversas instituições nacionais e internacionais. A autora conquistou a consagração popular e o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2023, sendo celebrada como enredo do carnaval pela escola de samba Acadêmicos da Abolição.

 

Gratidão, resistência e a legitimidade da presença negra

Ao receber o diploma, Conceição Evaristo agradeceu à comunidade acadêmica, a seus familiares e aos estudantes que impulsionaram a proposta, vinculando sua conquista à profecia de seu bisavô Zinho, homem nascido sob a Lei do Ventre Livre, que prenunciava: “Na minha família, ainda vamos ter professora e doutora”. A escritora enfatizou que a solenidade não constituía benesse, mas o legítimo reconhecimento da presença e da produção intelectual negra.

Conceição Evaristo recebe título doutor honoris causa pela UFRJ

Mesa de honra da solenidade | Foto: Fábio Caffé / SGCOM/UFRJ

 

“Vivemos em tempo de gratidão. Vivemos em tempo de inscrição de novas histórias. Novas histórias traduzidas no tempo, testemunhadas no agora, mas que em suas antigas raízes ou talvez na teimosia de seus rizomas se espalham, confundindo raiz, broto e caule. Estamos na feitura desses novos tempos, que já se faziam afirmativas em premonições, ou mesmo em desejos gritados e também em vozes imperceptíveis, quase adormecidas no silêncio. Este lugar é nosso por merecimento, pelo trabalho, pela contribuição que nós damos à cultura brasileira em todos os sentidos. Não quero ser a única, não quero ser enfeite, quero que todas as mulheres negras possam ser reconhecidas em seus trabalhos, em suas sabedorias, em suas dinâmicas de vida”, disse Evaristo.

 

Ao aprofundar o sentido da honraria, a escritora pontuou que a presença e a legitimação de intelectuais negras não engrandecem apenas quem as recebe, mas transformam a própria essência da instituição universitária. Para Conceição, a abertura acadêmica a outras matrizes de saber permite que esses espaços finalmente façam jus ao significado pleno de universalidade.

 

A homenagem coletiva da UFRJ a Conceição Evaristo

A mesa de honra da solenidade foi presidida pelo reitor da UFRJ, Roberto Medronho, e composta pela vice-reitora, Cássia Turci; pelo decano do Centro de Letras e Artes (CLA), Afrânio Gonçalves Barbosa; pelo diretor da Faculdade de Letras, Roberto de Freitas Júnior; pela oradora da sessão, professora Vanessa Ribeiro Teixeira; e pela própria homenageada.

 

Já a comissão de honra responsável por conduzir Conceição Evaristo ao salão reuniu os professores eméritos Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco e Godofredo de Oliveira Neto; o irmão da escritora, Altamir Evaristo Vitorino; a professora da UFF Luíza Rodrigues de Oliveira; a jornalista Flávia Oliveira; a escritora e jornalista Eliana Alves Cruz; a historiadora Cristina Fernandes Warth; a médica e ativista Jurema Pinto Werneck; a professora Islene Motta; e o escritor Vagner Amaro.

 

A solenidade contou ainda com apresentações culturais com reverência à ancestralidade da homenageada. Antes da formação da mesa de honra, foi exibido um vídeo sobre o projeto do mural artístico em homenagem à escritora, idealizado pela estudante de pintura Rebeca, da Escola de Belas Artes. Em seguida, o salão acolheu a apresentação poético-musical da escritora moçambicana Énia Lipanga, que é neta afetiva da homenageada, acompanhada pela instrumentista Bela Zango. Énia declamou versos da célebre poeta moçambicana Noémia de Sousa e convidou a própria Conceição Evaristo para uma leitura conjunta de um poema, celebrando os laços entre África e Brasil.

 

A trajetória de Conceição Evaristo também foi destacada durante as falas dos componentes da mesa de honra, que salientaram o caráter de compromisso histórico, afirmação antirracista e valorização da educação pública exercidos por décadas de atuação da homenageada. A vice-reitora, Cássia Turci, classificou o momento como um dos mais luminosos da trajetória centenária da instituição, frisando que a presença da autora reafirma aos jovens cotistas e periféricos que a Universidade lhes pertence e que a ciência nacional não se completa sem a voz e a ancestralidade das mulheres negras.

Escritora Conceição Evaristo recebe título de doutor honoris causa pela UFRJ

Cerimônia Contou com uma apresentação cultural com a participação da própria homenageada Foto: SGCOM/UFRJ

 

A trajetória de Conceição Evaristo também foi destacada durante as falas dos componentes da mesa de honra, que salientaram o caráter de compromisso histórico, afirmação antirracista e valorização da educação pública exercidos por décadas de atuação da homenageada. A vice-reitora, Cássia Turci, classificou o momento como um dos mais luminosos da trajetória centenária da instituição, frisando que a presença da autora reafirma aos jovens cotistas e periféricos que a Universidade pertence a eles e que a ciência nacional não se completa sem a voz e a ancestralidade das mulheres negras.

 

 

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